quinta-feira, julho 16, 2026

Magia, Acaso e Cronômetro


 Por Rômulo Castro 

O relógio digital no pulso mede o tempo, os passos, os batimentos, as calorias. Mede o pace, o ritmo, e despeja tudo na rede social. É o controle do corpo, do espaço e do tempo e este não pode ser desperdiçado. A única saída para o desperdício virou o tempo religioso ou o tempo da bebedeira e das drogas, tentativa de se salvar a si mesmo antes de voltar à trilha do trabalho. Até o lazer é contado em horas, e nem nas arquibancadas se pode desperdiçar nada: entre um lance e outro, a música preenche cada intervalo para que não haja pausa, nem respiro.

O futebol não escapou à ascensão de Thatcher e Reagan. Por razões que não cabe aqui esmiuçar, os fundos de investimentos, empresas e bilionários passaram a se apoderar dos clubes, e as últimas décadas assistiram a uma tentativa de homogeneização do jogo e do próprio jeito de jogar. É o futebol programado, o projeto erguido contra o acaso que é inerente à bola. É a completa otimização e resultadismo. A última fronteira a ser quebrada é acabar com as zebras e que o jogo como do Paraguai contra a França na copa seja criminalizado.

O esquema Guardiola, o jogo posicional, se preferirem, tem como premissa a maior previsibilidade possível, o fim do acaso. Reter a bola ao máximo. Evitar o perigo do jogo. Previsibilidade é tudo que querem os tecnocratas e gestores do fundos de investimentos globais e dos chamados mercados. É a Espanha dos 2.500 passes sem sofrer um chute a gol, mas também sem provocar o imprevisto.

Desde os anos 1970 avançou; contraditoriamente, pelas mãos da comissão física da maior seleção de todos os tempos; a ideia do controle: o fim do engano, da magia, da bruxaria, da pausa, do respiro, daquele segundo de suspensão antes da aceleração. Cláudio Coutinho e Parreira contra a imprevisibilidade; abaixo o desinteresse e a contemplação. Talvez por isso, como advertiu o mestre Tostão, Parreira não soube lidar com o bruxo dos bruxos na seleção de 2006. Sua visão eurocêntrica de futebol impediu de olhar o futebol como diversão e liberdade, como diria Eduardo Galeano. E mesmo 1994 que mantinha as características brasileiras tenha sido vista como previsível demais. Constante demais. Segura demais. Seca. A de 70 ainda guardava a alma das feras de Saldanha, a dos craques, ainda que já convivesse com a entrada em campo de uma racionalização crescente do jogo.

Alegria do povo: o sorriso do prazer pelo simples fato do drible, do encanto, da magia, do desinteresse, do toque, da pausa, sem a racionalidade da vitória. Garrincha foi talvez o maior exemplo do nosso Macunaíma, como já abordou Wisnik, alma rebelde e subversiva, a dialética do malandro a se contrapor à ordem, encarnada diante do futebol tecnocientífico e do stakhanovismo soviético. O futebol como arte que, nas mãos do povo brasileiro, não virou ópio, mas lazer livre como o carnaval para aliviar as dores e, mais do que isso, para ser efetivamente livre.

Paulo André escreveu, no jornal O Globo, sobre o erro e o drible, e se referiu ao Mané, ao Garrincha, como alguém que talvez não coubesse no futebol contemporâneo. Não há espaço para o erro. O drible virou coisa pensada para o "último terço do campo": matematizaram o gramado a ponto de a linha de fundo desaparecer. A era do jogo posicional é a era da consolidação do neoliberalismo, tanto na economia quanto na cultura.

Isso se reflete no maior e melhor jogador deste início de século XXI. Futebol seco, sem desperdício de espaço e de tempo. Sem brincadeira. Sem lazer. Contido. A estética da efetividade. Uma espécie de ultra especialização do jogador, destinado a caber naquele espaço rascunhado e simétrico do campo, destinado a ser decisivo, cujo a beleza é o cálculo racional-utilitário das jogadas terminadas em assistências e gols para preencher as planilhas dos aplicativos estatísticos e táticos. Para ter Messi em campo ele é obrigado a retribuir em gols e assistências.   Não digo que ele tenha sido concebido para isso; mas foi nesse futebol, produzido inclusive nas canteras europeias, longe das ruas, que encontrou o melhor jeito de se adaptar e de entender o jogo. Nesse sentido, sua ascensão no lugar do Bruxo é sintomática. Futebol utilitário, da ultra especialização do gesto eficiente e eficaz no lugar do DOM.

Contraditoriamente, esse mesmo jogador está inserido numa seleção que seu treinador resolveu ir contra os cosmopolitismo neoliberal e a homogeneização neoliberal que a globalização prometeu e vem fazendo, e cujo movimento antiglobalização e a heroica e insuficiente Ação Global dos Povos tentaram resistir. Resolveu apostar na sua identidade latino-americana, potrera, e portenha do passe curto, do respiro do espaço do tempo. Scaloni o convenceu a ficar e a Scaloneta devolveu ao já consagrado utilitário Messi do Barcelona e de Guardiola o espaço afetivo para retornar aos campos de rosário e com isso aparecer o DOM, a explosão, sentimento, afeto tudo aquilo que era cobrado quando D10S ainda vivia e como disse Cecconello ainda não havia sido oferecido como sacrifício. Todos aplaudiram sua explosão de raiva na última copa contra Holanda, todas adoraram sua versão mais criativa e menos contida, como diziam, era o Messi Maradoniano. Trotando por todo gramado. Era o Messi com DOM, liderando a Scaloneta que o blindou do trabalho de La Masia e o trouxe para o lazer de Rosário, lugar do próprio Scaloni e do anjo Di Maria, coadjuvante fundamental para os últimos cinco anos mágicos do Messias, liberando a Magia com o título da Copa América de 2021.

Porque a criatividade é inseparável da liberdade: toda opressão é também opressão estética, pois mutila a capacidade criadora humana. O que o capitalismo e o Estado produzem é a beleza do poder, aquela que exclui, subordina e disciplina os corpos que não se enquadram. Não é um corpo que se insubordina; é um corpo que se adapta, que se adequa. É o corpo do trabalho.

Nesse sentido, o futebol atual, seus investidores, burocratas e treinadores não quer um corpo que se insubordina, quer um corpo que se adapta, se adequa. É o corpo do trabalho, adaptado a executar determinado trabalho numa posição do campo devidamente organizada para tal. A Messi cabia naqueles metros da ponta direita para grande área executar seus dribles objetivo e secos e descobrir o espaço exato do chute para definir o jogo.

No futebol há o prazer, a emoção, a experiência coletiva de um instante de beleza partilhada entre cinquenta mil pessoas, é isso que constitui o futebol como fenômeno cultural insubstituível. "Todo equipo que trata bien al balón, trata bien al espectador", lembra Valdano, que aposta numa saída paradoxal: a beleza como eficácia. Se o jogo bonito também ganha, então o mercado pode ser derrotado em seu próprio terreno. É uma aposta que exige coragem: resistir à pressão do resultadismo no curto prazo para construir uma identidade de jogo no longo prazo. Mas é mais do que beleza, é também magia, e isso se torna cada vez mais raro na genialidade dos craques como o próprio Messi, MBappe e menos ainda em CR7, o mais robótico de todos.

O jogo é, afinal, um campo de disputa cultural, onde se enfrentam a lógica da criação coletiva livre, e da liberdade do indivíduo, e a lógica da acumulação de capital, do controle sobre o corpo, sobre a autonomia e, no limite, sobre a própria atividade. Quando o futebol vira só obrigação, cada vez mais controlado e tecnificado, ele aliena o brinquedo, a bola, o lazer. O trabalho que era jogo se converte em mera execução do plano programado, sem acaso, com todo o espaço e o tempo medidos, marcados pela eficácia e pela eficiência do resultado: não gastar tempo, espaço nem energia à toa. Nesse sentido, o guardiolismo, a despeito das posições progressistas de seu mentor, aprofundou o avanço do capital sobre o gramado, criando o ambiente técnico da previsibilidade de que precisam os mercadores da bola.

Já o futebol associativo, relacional, do afeto, do toque, da pausa, da procura da bola, é o que fortalece os laços e a cumplicidade, e rompe com a alienação do futebol enquanto trabalho. É o trabalho livre de suas amarras dominantes. A Scaloneta fez Messi ser livre em campo.

E é aqui que o MessiAS encarna sua contradição. Produto técnico e orgânico. Passes e dribles sempre secos, com pouco DOM. Pronto a antever e descobrir o espaço que vai ocupar para agir como num golpe certeiro de arte marcial: letal.  Devolvendo aos clientes e consumidores o seu investimento. Matematicamente calculado para a extrema eficácia: o menor gasto de energia, o menor movimento possível. Ele é a contradição viva do futebol tecnocientífico, porque seu único objetivo é a bola, enquanto treinadores e comissões querem controlar o jogo e o jogador por inteiro. Menotti, Aimar e Scaloni o devolveram ao futebol potrero, do afeto.  É jogador pronto a definir as jogadas do jogo, o andar em campo apenas para arrematar o jogo. Assim, a Scaloneta encontrou o MessiAS, e ele encontrou a Scaloneta: puro futebol-engano, sul-americano, mágico, em busca da identidade argentina do toco y me voy, do ritmo, pausa e aceleração, da diagonal, do corta-luz. Esse andar quase parado, que contraria toda a intensidade do futebol científico. O futebol desenvolvido é sem tempo para pausas. Sem associação. Sem improviso. Futebol sem Magia. Mas as ruas, as “banlieus”, as favelas ainda estão por aí....