Por Rômulo Castro
O relógio digital no pulso mede o
tempo, os passos, os batimentos, as calorias. Mede o pace, o ritmo, e
despeja tudo na rede social. É o controle do corpo, do espaço e do tempo e este
não pode ser desperdiçado. A única saída para o desperdício virou o tempo
religioso ou o tempo da bebedeira e das drogas, tentativa de se salvar a si
mesmo antes de voltar à trilha do trabalho. Até o lazer é contado em horas, e
nem nas arquibancadas se pode desperdiçar nada: entre um lance e outro, a música
preenche cada intervalo para que não haja pausa, nem respiro.
O futebol não escapou à ascensão
de Thatcher e Reagan. Por razões que não cabe aqui esmiuçar, os fundos de
investimentos, empresas e bilionários passaram a se apoderar dos clubes, e as
últimas décadas assistiram a uma tentativa de homogeneização do jogo e do
próprio jeito de jogar. É o futebol programado, o projeto erguido contra o
acaso que é inerente à bola. É a completa otimização e resultadismo. A última
fronteira a ser quebrada é acabar com as zebras e que o jogo como do Paraguai
contra a França na copa seja criminalizado.
O esquema Guardiola, o jogo
posicional, se preferirem, tem como premissa a maior previsibilidade possível,
o fim do acaso. Reter a bola ao máximo. Evitar o perigo do jogo. Previsibilidade
é tudo que querem os tecnocratas e gestores do fundos de investimentos globais
e dos chamados mercados. É a Espanha dos 2.500 passes sem sofrer um chute a
gol, mas também sem provocar o imprevisto.
Desde os anos 1970 avançou; contraditoriamente,
pelas mãos da comissão física da maior seleção de todos os tempos; a ideia do
controle: o fim do engano, da magia, da bruxaria, da pausa, do respiro, daquele
segundo de suspensão antes da aceleração. Cláudio Coutinho e Parreira contra a
imprevisibilidade; abaixo o desinteresse e a contemplação. Talvez por isso,
como advertiu o mestre Tostão, Parreira não soube lidar com o bruxo dos bruxos
na seleção de 2006. Sua visão eurocêntrica de futebol impediu de olhar o
futebol como diversão e liberdade, como diria Eduardo Galeano. E mesmo 1994 que
mantinha as características brasileiras tenha sido vista como previsível
demais. Constante demais. Segura demais. Seca. A de 70 ainda guardava a alma
das feras de Saldanha, a dos craques, ainda que já convivesse com a entrada em
campo de uma racionalização crescente do jogo.
Alegria do povo: o sorriso do
prazer pelo simples fato do drible, do encanto, da magia, do desinteresse, do
toque, da pausa, sem a racionalidade da vitória. Garrincha foi talvez o maior
exemplo do nosso Macunaíma, como já abordou Wisnik, alma rebelde e subversiva,
a dialética do malandro a se contrapor à ordem, encarnada diante do futebol
tecnocientífico e do stakhanovismo soviético. O futebol como arte que, nas mãos
do povo brasileiro, não virou ópio, mas lazer livre como o carnaval para
aliviar as dores e, mais do que isso, para ser efetivamente livre.
Paulo André escreveu, no jornal O
Globo, sobre o erro e o drible, e se referiu ao Mané, ao Garrincha, como
alguém que talvez não coubesse no futebol contemporâneo. Não há espaço para o
erro. O drible virou coisa pensada para o "último terço do campo":
matematizaram o gramado a ponto de a linha de fundo desaparecer. A era do jogo
posicional é a era da consolidação do neoliberalismo, tanto na economia quanto
na cultura.
Isso se reflete no maior e melhor
jogador deste início de século XXI. Futebol seco, sem desperdício de espaço e
de tempo. Sem brincadeira. Sem lazer. Contido. A estética da efetividade. Uma
espécie de ultra especialização do jogador, destinado a caber naquele espaço
rascunhado e simétrico do campo, destinado a ser decisivo, cujo a beleza é o
cálculo racional-utilitário das jogadas terminadas em assistências e gols para
preencher as planilhas dos aplicativos estatísticos e táticos. Para ter Messi
em campo ele é obrigado a retribuir em gols e assistências. Não
digo que ele tenha sido concebido para isso; mas foi nesse futebol, produzido
inclusive nas canteras europeias, longe das ruas, que encontrou o melhor
jeito de se adaptar e de entender o jogo. Nesse sentido, sua ascensão no lugar
do Bruxo é sintomática. Futebol utilitário, da ultra especialização do gesto
eficiente e eficaz no lugar do DOM.
Contraditoriamente, esse mesmo
jogador está inserido numa seleção que seu treinador resolveu ir contra os
cosmopolitismo neoliberal e a homogeneização neoliberal que a globalização
prometeu e vem fazendo, e cujo movimento antiglobalização e a heroica e
insuficiente Ação Global dos Povos tentaram resistir. Resolveu apostar na sua
identidade latino-americana, potrera, e portenha do passe curto, do respiro do
espaço do tempo. Scaloni o convenceu a ficar e a Scaloneta devolveu ao já
consagrado utilitário Messi do Barcelona e de Guardiola o espaço afetivo para
retornar aos campos de rosário e com isso aparecer o DOM, a explosão,
sentimento, afeto tudo aquilo que era cobrado quando D10S ainda vivia e como
disse Cecconello ainda não havia sido oferecido como sacrifício. Todos
aplaudiram sua explosão de raiva na última copa contra Holanda, todas adoraram
sua versão mais criativa e menos contida, como diziam, era o Messi Maradoniano.
Trotando por todo gramado. Era o Messi com DOM, liderando a Scaloneta que o
blindou do trabalho de La Masia e o trouxe para o lazer de Rosário, lugar do
próprio Scaloni e do anjo Di Maria, coadjuvante fundamental para os últimos
cinco anos mágicos do Messias, liberando a Magia com o título da Copa América
de 2021.
Porque a criatividade é
inseparável da liberdade: toda opressão é também opressão estética, pois mutila
a capacidade criadora humana. O que o capitalismo e o Estado produzem é a
beleza do poder, aquela que exclui, subordina e disciplina os corpos que não se
enquadram. Não é um corpo que se insubordina; é um corpo que se adapta, que se
adequa. É o corpo do trabalho.
Nesse sentido, o futebol atual,
seus investidores, burocratas e treinadores não quer um corpo que se
insubordina, quer um corpo que se adapta, se adequa. É o corpo do trabalho,
adaptado a executar determinado trabalho numa posição do campo devidamente organizada
para tal. A Messi cabia naqueles metros da ponta direita para grande área
executar seus dribles objetivo e secos e descobrir o espaço exato do chute para
definir o jogo.
No futebol há o prazer, a emoção,
a experiência coletiva de um instante de beleza partilhada entre cinquenta mil
pessoas, é isso que constitui o futebol como fenômeno cultural insubstituível. "Todo
equipo que trata bien al balón, trata bien al espectador", lembra
Valdano, que aposta numa saída paradoxal: a beleza como eficácia. Se o jogo
bonito também ganha, então o mercado pode ser derrotado em seu próprio terreno.
É uma aposta que exige coragem: resistir à pressão do resultadismo no curto
prazo para construir uma identidade de jogo no longo prazo. Mas é mais do que
beleza, é também magia, e isso se torna cada vez mais raro na genialidade dos
craques como o próprio Messi, MBappe e menos ainda em CR7, o mais robótico de
todos.
O jogo é,
afinal, um campo de disputa cultural, onde se enfrentam a lógica da criação
coletiva livre, e da liberdade do indivíduo, e a lógica da acumulação de
capital, do controle sobre o corpo, sobre a autonomia e, no limite, sobre a
própria atividade. Quando o futebol vira só obrigação, cada vez mais controlado
e tecnificado, ele aliena o brinquedo, a bola, o lazer. O trabalho que era jogo
se converte em mera execução do plano programado, sem acaso, com todo o espaço
e o tempo medidos, marcados pela eficácia e pela eficiência do resultado: não
gastar tempo, espaço nem energia à toa. Nesse sentido, o guardiolismo, a
despeito das posições progressistas de seu mentor, aprofundou o avanço do
capital sobre o gramado, criando o ambiente técnico da previsibilidade de que
precisam os mercadores da bola.
Já o futebol
associativo, relacional, do afeto, do toque, da pausa, da procura da bola, é o
que fortalece os laços e a cumplicidade, e rompe com a alienação do futebol
enquanto trabalho. É o trabalho livre de suas amarras dominantes. A Scaloneta
fez Messi ser livre em campo.
E é aqui que o
MessiAS encarna sua contradição. Produto técnico e orgânico. Passes e dribles
sempre secos, com pouco DOM. Pronto a antever e descobrir o espaço que vai
ocupar para agir como num golpe certeiro de arte marcial: letal. Devolvendo aos clientes e consumidores o seu
investimento. Matematicamente calculado para a extrema eficácia: o menor gasto
de energia, o menor movimento possível. Ele é a contradição viva do futebol
tecnocientífico, porque seu único objetivo é a bola, enquanto treinadores e
comissões querem controlar o jogo e o jogador por inteiro. Menotti, Aimar e
Scaloni o devolveram ao futebol potrero, do afeto. É jogador pronto a definir as jogadas do jogo,
o andar em campo apenas para arrematar o jogo. Assim, a Scaloneta encontrou o
MessiAS, e ele encontrou a Scaloneta: puro futebol-engano, sul-americano,
mágico, em busca da identidade argentina do toco y me voy, do ritmo, pausa
e aceleração, da diagonal, do corta-luz. Esse andar quase parado, que contraria
toda a intensidade do futebol científico. O futebol desenvolvido é sem tempo para
pausas. Sem associação. Sem improviso. Futebol sem Magia. Mas as ruas, as
“banlieus”, as favelas ainda estão por aí....
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